Aparente Inocência

 

Ao iniciar meus trabalhos em pastéis fui revisitar a obra de Paula Rego e para minha
surpresa me deparei com um excerto de um texto dela que em larga medida me diz muito
sobre meu próprio processo de trabalho: “...imagine que num quadro, em vez de por a
figura no sítio onde fica bem, põe-se num sítio onde fica mal. Começa-se o quadro
perversamente errado. Depois tem de se arranjar uma maneira de acertar. Com o assunto
muitas vezes acontece o mesmo começa-se ao contrário.”


Meu trabalho de certa maneira quer “dourar a pílula” e é travestido de um “decorativo para
combinar com o sofá”, mas que no fundo é perverso. Trato com esta estética temas tidos
como espinhosos e muitas vezes controversos que nos afligem até os dias de hoje, tais
como a continuidade de um pensamento escravocrata colonial, a mistificação dos pseudo-
heróis, o afã da fama a qualquer preço, o consumo excessivo, fruto de um desejo
obsessivo de se ter mais e mais, que acaba por criar uma demanda de produtividade nas
fábricas e que muitas vezes gera um retorno a um sistema trabalhista que beira a
escravidão .


Obviamente esses temas não são tratados com a profundidade devida e ficam na esfera
da superficialidade, aliás muito condizente com o estado do mundo atual. É neste ponto
que a crítica que subjaz as minhas composições se tornam de certa forma mais
contundentes. Hoje muitas vezes a informação que nos chega pode vir através de
imagens, memes e fake news e se não tivermos a preocupação de tentar nos informar de
forma mais consciente e consistente podemos ser vítimas dessas informações superficiais
e até mesmo mentirosas.

Em síntese, a perversidade em meus trabalhos está na abordagem desses temas de
forma fantasiosa, cenários saídos de contos de fadas com uma paleta de cores em tons
pastéis e envoltos em toda uma parafernália decorativa. Uma boa figura de linguagem
para expressar no que busco em meus trabalhos é que tento colocar o elefante no meio
da sala e isso pode ocorrer até literalmente falando.


Nestes trabalhos recentes, apresento pássaros mortos que continuam belos, já que estão
empalhados. Eles recebem os nomes de drogas anestésicas caso das obras Xilocaína ou
Aftine e Lidial. Trata-se de uma referência a como nós estamos tão anestesiados diante
de tudo que assistimos todos os dias. E me pergunto: será que não estaríamos todos
flutuando sobre flores? Assim como os personagens retratados em minhas obras, sem
saber em que bases de realidade se pautar e em quais informações e versões acreditar.


Procuro minhas referências em um território que me traz segurança: a estética e as Belas
Artes. Pois, como dizia Louise Bourgeois “ A arte é a garantia de sanidade”. Ou, ainda
segundo o filósofo Theodor Lipps que o prazer estético poderia ser entendido como sendo
um auto prazer objetificado. Este é o território onde encontro meu refúgio. A arte para mim
continua sendo um lugar onde é possível sair desse modo empalhado e anestesiado em
que muitas vezes me encontro. Isso ocorre ao me apropriar de imagens de outros artistas,
de fotos de pessoas desconhecidas, objetos de vitrines de museus e coisas que encontro
no dia -a-dia. Quando utilizo as composições claustrofóbicas de Francis Bacon ou uso
uma foto da artista conceitual Sophie Calle, uma máscara de Louise Bourgeois, a foto da
menina de Rineke Dijkstra, a mulher de Fragonard ou a de Gerhard Richter é por acreditar
que dentro dessas obras, fotos e objetos há códigos que me interessam e que me ajudam
a escrever a minha própria mensagem quando eu os ressignifico ao meu bel prazer. Por

exemplo, ao copiar uma pintura de Richter que é tida como hiperrealista o que me
interessou nela foi o fato dele pintar de forma hiperrealista a foto da mulher e não a
própria mulher. Para mim está implícita nessa obra o poder que a imagem representa
hoje. Ao ressignificar essa imagem com o uso do pastel seco, refaço a imagem da
imagem sem rosto da mulher de Richter. É então que aparece outra questão: o que fiz é
arte? É uma cópia? Ou uma mera ilustração? O título desta minha obra dá conta disso:
Geraldina, made in China.

A escolha dessas imagens assim como o uso do pastel também não são aleatórias, pois
utilizo um material artístico tradicional porém em papéis de cores berrantes como se
quisesse que a informação chegasse como um outdoor de propaganda nada sutil,
fazendo assim um contraponto com os tons pastéis dos desenhos.


Penso que o que faço pode ser entendido enquanto um re-registro, um processo dialético
entre forma e essência, um meio termo do que aparece ao olhar e é perceptível pelos
sentidos e a verdade aprisionada dentro das coisas, juntando tudo num só tempo e
espaço referências do cotidiano, da história da arte, manchetes de jornais e até de fake
news. A palavra-chave para esse processo é ressignificação, ou seja, criar uma nova
ordem própria, enviar uma nova mensagem, exercício possível particularmente no
território da arte. É neste contexto decorativo, rococó, de humor e de ironia perverso que
a mensagem é passada e as referências aprendidas criam um novo ecossistema
particular. Ao final o que importa é aquilo que está além do simples ato de registro,
romper com o que à princípio é esperado e se apresentar para quem?? Para Deus no dia
do juízo final como sempre quis o genial artista Bispo do Rosário? Quem sabe?

Andrea Rocco