Tesoura e Alfinetes

 

Desconfie dos propósitos pacíficos da costura. Antes, é preciso a lâmina da tesoura e as agudezas dos alfinetes (algum sangue?) a demarcar o território do que será feito. Há coisas a reunir porque uma lógica sutil e implacável (perversa?) as alinhou: natureza várias, simulacros delas, bordados. Botões. Um nó. Vários. O avesso de fita.

   Convém prestar atenção onde se pisa. Uma agulha pode estar sob uma obra de tecido de seda e espetar quem evoca o clichê do eterno feminino envolto em ingenuidades. A pedra de toque da inteligente obra de Andrea Rocco é a ironia, o humor fino, o riso por trás da cortina. É a anatomia das conveniências expostas à luz do dia. Tudo isso expresso em uma pintura estruturada pelo desenho e vice-versa. A aquarela tem protagonismo luminoso e a colagem estabelece narrativas potencializadas pela atitude instalativa que perpassa o conjunto de trabalhos.

   Na obra Realeza Tupiniquim, a frase vitoriana surge quase como emblema: "Be good and, if you can't be good, be careful" ( Seja bom e, se você não pode ser bom, seja cuidadoso). Algo assim como um recado para o príncipe Charles e todos os príncipes, encantados ou não. Andrea Rocco definitivamente não é uma boa menina. Adora mexer nos guardados da Grã Bretanha e quebrá-los. Também nos delicia com chinoiserie, colchas (quilts) e mesmo toalhas de piquenique.

   Stickers de carinhas sorridentes e amarelas pontuam o espaço da pintura com a mesma ausência de cerimônia com que Branca de Neve, Jackie Onassis e figurinhas de futebol invadem a composição. Até nosso conceito de beleza é alvejado. Beautify, escreve a artista na obra, em desafio dirigido a nós. Para deixar claro: a sedução visual é uma estratégia e não um fim em si mesmo. Andrea Rocco não pretende o exercício da pintura apenas como afirmação rasa de virtuose técnica. Prefere estar atenta às lições de Duchamp: a pintura retiniana não basta. É preciso que a pintura ( ou sua irmã solar, a aquarela) fale aos neurônios e nos leve a investigar intenções e objetivos. Ou nos leve a abrir caminho para ressignificações de um repertório universal.

   Não há aqui categorias rígidas nem espaços ou temporalidades que não possam ser permeáveis, imantados por proximidades. Isso fica nítido na série de interferências em desenho e aquarela que a artista realizou sobre reproduções de gravuras da Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira, um dos artistas-viajantes do século XVIII.

   Ao contrário do espírito ainda enciclopedista e classificatório da época de Ferreira, Andrea Rocco sabe (como o século XXI nos faz ver, em enxurradas de imagens) que no espírito de hoje qualquer registro ou memória é contingente e relativo. Nossa noção de mundo não mais se estabelece pela análise lógica que herdamos da filosofia grega. Ela se faz do aqui e agora, da justaposição e da articulação possível, em determinado instante, de noções fragmentárias de um universo de informações cada vez mais expandido e mutável.

   À síntese aristotélica de então se sobrepõe hoje a noção do rizoma (Deleuze e Guattari): raízes que se multiplicam em infinitos desdobramentos e fluxos de ideias. Algo que só o território poroso da arte é capaz de abranger e costurar. Algo que Andrea Rocco nos traz com enorme frescor nesta exposição e em toda sua jovem mas consiste trajetória poética.

 

Angélica de Moraes