Contos–de–Vida

Andrea Rocco usa seu antigo quarto, do tempo em morava com os pais, como ateliê. Sua cama serve de teleiro, nas paredes ficam os trabalhos em andamento, rascunhos e colagens, junto com imagens que a artista colecionava. A escrivaninha serve como porta-arquivos: textos, desenhos e recortes que se amontoam por ali. O Ambiente como um todo chega a parecer uma instalação. Todas as informações são ligadas ao trabalho dela. As pinturas, os desenhos e os bordados de Andrea remetem ao mundo da fantasia.

Para esse universo fabuloso, Andrea criou uma personagem de seis anos de idade, chamada Coralina. Uma menina que não gosta de ficar sozinha, coleciona dentro de uma caixinha tudo o que vê, não sabe se explicar, cita Duchamp e Beuys, se pergunta constantemente sobre o sentido das coisas e sabe que não tem como escapar das escolhas. Coralina é uma artista.

 

As figuras retratadas por Andrea parecem ter saído das historias infantis, mas a artista desmascara a pureza destes contos. Em seus desenhos e pinturas, os animais são como os das fábulas de Esopo – trazem sentido e ensinamentos morais, são reais mas irônicos. Em seus bordados vemos uma certa perversidade, como se ela fizesse um raio-x das partes que não são contadas, nem mostradas para as crianças. Para acentuar a realidade, faz referencias sexuais em alguns de seus trabalhos. Esses aspectos lembram a delicadeza sensual das gravuras de Kiki Smith e dos bordados de Leonilson.

 

Foi no próprio ateliê que conheci o trabalho de Andrea, onde ele é mais real e verdadeiro, como descreveu o artista francês Daniel Buren: “no ateliê do artista que vemos a relação do trabalho com seu criador e com espaço onde ele é criado. Vemos trabalhos em andamento, trabalhos prontos e trabalhos abandonados, rascunhos e coleções de evidências que nos permitem entender o processo de criação, aspecto que desaparece quando o trabalho é transferido para um museu”.

 

Para chegar ao ateliê/quarto de Andrea passamos pela sala, onde fica a coleção de miniaturas de locomotivas de seu pai. Esses trenzinhos que não transportam ninguém e não saem do lugar, são pura fantasia – símbolo da passagem do tempo e da possibilidade de viajar. As criações de Andrea surgem nesse ambiente. Um ambiente de contos-de-vidas.

Gisela Gueiros